Sunday, November 18, 2018
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Reportagem | Isa Mestre

 

Saiba mais sobre o investigador que tomou um café com o Nobel da Medicina, se cruzou com figuras como Mark Zuckerberg e Muhammad Ali e teve uma pistola apontada à cabeça em Harvard Square.

 

Pedro Castelo Branco tem 44 anos e há pelo menos 20 que tenta compreender como é que o cancro consegue ser tão inteligente ao ponto de sequestrar os nossos mecanismos e manipulá-los de forma a atuar a seu favor. A aventura da descoberta começou em 1998 quando, na Universidade de Aveiro, na então licenciatura em Biologia, aprende algumas das técnicas que viria a usar, mais tarde, para desenvolver um vírus capaz de reconhecer células cancerígenas.

 

Antigo saxofonista na Magna Tuna Cartola, Pedro Castelo-Branco começa, desde muito cedo, a orquestrar uma perseguição ao cancro. Inspirado pelo trabalho de um dos melhores neurocirurgiões do mundo que, em Harvard, começava a usar vírus para combater a doença, o jovem investigador confessa que a ideia o deixou “tão fascinado” que, em 2000, e aproveitando a viragem do milénio, decide rumar a Oxford para iniciar o Doutoramento em Biologia Molecular.

 

É lá que priva de perto com alguns dos gigantes a trabalhar na área do processamento de RNAs e que percebe, finalmente, com que instrumentos se comporá a melodia do futuro.

 

Após um percurso académico brilhante, que culmina com o término do Doutoramento em Oxford, o investigador vence, em 2005, o Prémio que o catapulta, definitivamente, para a investigação e que lhe permitiu, como nos conta, “meter uma mochila às costas e ir dar a volta ao mundo”.

 

Após percorrer o Brasil, a Argentina, o Chile, o México, o Canadá, os Estados Unidos, a Nova Zelândia, a Austrália, o Japão e a China, Pedro Castelo-Branco confessa que estava “pronto para avançar”.

Com meio mundo debaixo do braço, chega a Harvard para, com o seu conhecimento em Biologia Molecular, “criar vetores virais capazes de reconhecer células cancerígenas de células normais”.

Como explica, “em 2006 isto era algo relativamente recente, uma espécie de tecnologia de ponta”. Tecnologia essa que Pedro Castelo-Branco viria a refinar para, três anos mais tarde, desta feita em Toronto, começar a trabalhar com células cancerígenas estaminais, aquelas que chama de “abelhas-mestras dos tumores”.

 

Daí até então, tudo aconteceu muito rápido. Como nos conta o investigador, foi um ponto de interrogação em aberto que o levou à grande descoberta da sua carreira. “Durante o processo em que estive em Toronto a tentar desenvolver novas terapias para estas células cancerígenas estaminais, deparo-me com uma alteração que ocorria na tal enzima da telomerase e que eu não conseguia explicar”.

 

Se era um facto que a telomerase estava sempre “ativa” no cancro, Pedro Castelo-Branco compreendeu, naquele instante, que a sua missão passava por compreender “como é que isto acontece, como é que a célula cancerígena consegue ser tão inteligente, ir ao DNA da telomerase e fazer alguma coisa para que a enzima esteja sempre ligada”.

 

Como esclarece o investigador se, “em condições normais a telomerase tem um botão on e off”, ou seja, liga e desliga, “o que acontece, no caso do cancro, é que não há interruptor, a telomerase está sempre ativada porque as células estão sempre em divisão”. O desafio foi perceber “como é que o cancro faz isto?”.

 

E essa é, de facto, a grande descoberta na carreira do investigador: “compreender que há um mecanismo epigenético por detrás de tudo isto”, que faz com que o cancro, com a sua inteligência, consiga promover “a tempestade perfeita”, ou seja, a imortalização das células cancerígenas.

Hoje, a trabalhar naquela que é conhecida como a “ciência da mudança”, Pedro Castelo-Branco lidera um grupo de investigação dedicado a encontrar biomarcadores epigenéticos que permitam diagnosticar e prognosticar eficazmente diversos tipos de cancro.

O mais recente tem nome de super-herói – THOR. Trata-se de uma região específica do gene da telomerase que permite aos investigadores detetar precocemente casos de cancro, e que lhes oferece, a partir da percentagem desta enzima presente no organismo, informação sobre o estadio de evolução da doença.

 

Uma descoberta que poderá, a longo prazo, contribuir para salvar muitas vidas uma vez que, como explica o investigador, “a telomerase permite-nos perceber que há a doença e quão agressiva ela é”.  Uma valiosa ajuda também para os clínicos que poderão contar com o auxílio deste biomarcador para detetar a doença em fases iniciais, quando esta ainda não é visível ao microscópio. Como adianta Pedro Castelo-Branco “há determinadas coisas que o patologista pode ainda não conseguir ver. Mas, se formos capazes de chegar a esta célula e medir a percentagem do THOR, observando que existe algum tipo de alteração, podemos, eventualmente, chegar à conclusão que, aquilo que hoje ainda é benigno, corre maior risco de tornar-se num tumor maligno no futuro”.

Perseguir o cancro, compreender as suas estratégias, e desenvolver terapêuticas que impeçam a capacidade de auto-renovação das células cancerígenas, é o grande desafio da carreira e da vida de Pedro Castelo-Branco, que, em Oxford, bebeu um café com o Prémio Nobel da Medicina sem quase se aperceber disso.

 

Como nos conta, naquele dia “cheio de pompa e circunstância”, o seu mentor, Nick, que receberia a cátedra em Biologia Molecular, pediu-lhe um especial favor: receber um amigo que viria para falar com ele e entretê-lo durante um par de horas até à cerimónia.

 

Pedro Castelo-Branco, então a trabalhar no laboratório do reconhecido cientista, assim o fez. A surpresa chegou horas mais tarde, quando, como nos conta, “no momento de entrega do galardão, a organização anuncia a presença do Nobel da Medicina para entregar o prémio e, ao meu lado, se levanta o sujeito que tinha estado a beber um café comigo horas antes”.

“No momento de entrega do galardão, a organização anuncia a presença do Nobel da Medicina para entregar o prémio e, ao meu lado, levanta-se o sujeito que tinha estado a beber um café comigo horas antes”.

Apenas uma das peripécias do jovem investigador que, mais tarde, nos Estados Unidos, se cruzou com nomes como Mark Zuckerberg, o fundador e criador do Facebook e Muhammad Ali, um dos pugilistas mais conhecidos do mundo.

 

Sobre este último, Pedro Castelo Branco, recorda, particularmente, um episódio. A trabalhar, na altura, no Hospital Universitário da Faculdade de Medicina de Harvard, no Departamento de Neurocirurgia, o investigador lembra-se bem do dia em que, após uma consulta, um amigo neurocirurgião chegou ao gabinete onde ambos trabalhavam “com uma cara estranha, quase sem ar”, após ter atendido, na urgência, Muhammad Ali. É que o antigo pugilista acabara de ter um “apagão” na sua consulta e quando acordou “a primeira coisa que fez foi começar a dar murros no ar” a pensar que estava num dos combates do século –  a mítica luta com Foreman.

 

Outra das peripécias da carreira académica de Pedro Castelo-Branco aconteceu numa barbearia em Harvard Square, onde o investigador se deslocava frequentemente. Como conta “tinha terminado uma aula, estava a cortar o cabelo, e, de repente, entra um tipo com uma pistola na mão para tirar o dinheiro da caixa ao barbeiro que, por sinal, lhe devia um acerto de contas”. Do caricato episódio ficou na memória de Pedro Castelo-Branco o facto de, naquele dia, ter viajado para Portugal “com meio cabelo”: “Lembro-me que cheguei ao aeroporto com metade do cabelo e quando cheguei a Portugal a minha mãe nem me deixou ir para casa”.

“Tinha terminado uma aula, estava a cortar o cabelo, e, de repente, entra um tipo com uma pistola na mão para tirar o dinheiro da caixa ao barbeiro que, por sinal, lhe devia um acerto de contas. Lembro-me que cheguei ao aeroporto com metade do cabelo e quando cheguei a minha mãe nem me deixou ir para casa.”

Em cinco anos em Inglaterra e três nos Estados Unidos muitas são as histórias que Pedro Castelo-Branco tem para contar. De regresso, outras tantas se vão escrevendo, diariamente, numa rotina dividida entre as aulas no Mestrado Integrado em Medicina e o Laboratório em Epigenética e Doença Humana, local onde continua a perseguir o sonho de encontrar formas de fintar o cancro.

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