Friday, December 14, 2018
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No seu novo livro, Don’t Be Such a Scientist: Talking substance in an age of style, Randy Olson defende que os cientistas devem retirar algumas ideias da indústria de Hollywood para comunicar a sua ciência. 

 

Quer estejamos a tentar persuadir as pessoas sobre os perigos da alterações climáticas, sobre a evolução da energia, ou sobre qualquer outro assunto, há algumas dicas que não devemos esquecer no momento de fazer passar a mensagem.

 

Dê uma aula improvisada 

 

Os cientistas têm um enorme “medo do erro”. Para os cientistas, se alguém diz algo errado, então, não é, de todo, um cientista.

 

Este medo é justificado quando falamos de eventos científicos, no entanto, quando estamos a falar com o público em geral, trata-se de um esfera diferente. Estamos no nível mais básico do conhecimento. Relaxe. Confie em si próprio. A sua audiência pressente o medo e não gosta disso.

 

No entanto, há uma forma de lidar com este problema. Chama-se improviso. O improviso ajuda-o a relaxar, a estar “no momento”, a “sair da sua cabeça”, a ser mais espontâneo – tudo coisas que o público aprecia e às quais está inteiramente aberto.

 

A prática científica, por si só, não o levará nesta direção. Às vezes é preciso um esforço extra para compensar o que a ciência faz com a nossa mente e com a nossa personalidade.

 

O treino de improviso aparece, normalmente, associado à comédia mas a verdade é que as suas regras básicas e as suas técnicas podem ser aplicadas à nossa vida em geral. Uma das melhores características de quem ensina é saber como ouvir e isso é algo em que os cientistas normalmente sentem dificuldade.

 

Como cientistas somos treinados para conhecer a nossa área de trabalho, ser autoritários e dar palestras. A investigação científica manifesta uma certa tendência para planear e controlar tudo. No entanto, é necessário trabalhar a ideia de que é preciso ouvir para dar feedback e interagir.

A improvisação pode ajudar-nos com isso.

 

Experimente a assistir a uma aula introdutória de improvisação. Se não lhe servir para mais nada, pelo menos, garantir-lhe-á uma boa dose de diversão.

 

Invista no Marketing

 

“Muita honestidade. Péssimo marketing.” São apenas frases feitas mas, a verdade, é que o marketing é um subtópico da comunicação.

 

Muitas vezes, o facto de se ter uma peça de informação boa e sólida, não significa que esta capte a atenção e o interesse do público. Assim, é preciso “embrulhar” a informação (um processo a que podemos chamar de marketing) para vendê-la ao público.

 

 

Repare-se, por exemplo, no caso do filme independente de Napoleon Dynamite, que foi produzido com apenas algumas centenas de milhares de dólares , mas no qual a companhia de distribuição que o comprou investiou mais de 10 milhões em publicidade. No final de contas, esta empresa acabou por gastar mais de 90% do seu orçamento a promover o produto. Revelou-se uma escolha acertada e o filme fez mais de 50 milhões.

 

Sim, neste momento, isto é o que os cientistas tendem a fazer: a acreditar no poder da informação por si só. Odeio ser cínico, mas é preciso ser realista.  Num mundo repleto de ruído como é o do nosso dia-a-dia a informação pode ser facilmente afugentada.

 

Desperte e cumpra

 

Perguntaram-me recentemente qual o ponto que eu considerava mais importante no meu livro. Para responder tenho de recuperar uma frase dita por um professor de comunicação há mais de uma década:  “Desperte e cumpra.”

 

Em primeiro lugar é preciso despertar o interesse do público, depois preencher as expetativas que lhe criámos. Despertar e cumprir.

 

Faça-o por esta ordem, não ao contrário. Não me ofereça uma tonelada de informações, ofereça-me algo que me intrigue e que me sugira por que motivo me devo preocupar com isso. Garanto-lhe que já não me perderá.

 

Os cientistas têm um pequeno problema com esta segunda parte. Sabem como dizer a alguém como a ciência é interessante mas, mostrá-lo e prová-lo, requer muito mais esforço.

É a diferença entre uma afirmação e uma questão. Se eu vos pedir para me falarem de vocês próprios em apenas três frases, qualquer um de vós pode começar a falar imediatamente, mas isso não significa que eu me sinta interessado ou “engajado” pelas vossas respostas.

 

Mas se eu vos pedir para mo dizerem sob o formato de perguntas, demorarão, com certeza, mais tempo a formular. O tempo dispendido a colocar-me boas questões será recompensado pois essas perguntas despertarão na minha mente um desejo por ouvir mais daquilo que vocês têm para me dizer.

 

 

Seja bilingue

 

Seja bilingue. Aprenda a falar um tipo de língua no trabalho e outro noutro tipo de ocasiões.

 

No que diz respeito à ciência, há uma linguagem académica e uma linguagem para o público em geral. A diferença é óbvia. Não falamos de “estados metaestáveis ​​hiperestáticos” numa festa tal como não estamos à espera que nos contem piadas secas numa palestra na universidade.

 

No entanto, outro tipo de questões poderão não ser tão óbvias e intuitivas – como, por exemplo, a necessidade de utilizar recursos mais visuais na comunicação com o público em geral.

 

 

Conte uma boa história

 

No final de contas, este é, talvez, o conselho mais importante. Vivemos num mundo sobrecarregado de informação e, simplesmente, não temos tempo para processar tudo o que todas as pessoas estão a dizer a todo o momento. Quantos livros temos na nossa mesa de cabeceira para ler? Quão grande é a sua pilha de DVDs para ver?

 

No entanto, se um amigo lhe disser amanhã que há um certo filme que deve mesmo ver, vai, provavelmente, move-lo para o topo da sua lista.

 

Conte uma boa história e toda a gente irá ouvi-lo. Este é um princípio que serve para ambas as audiências: para a académica e para o público em geral.

 

O bom storyteling é infinitamente difícil. Se fosse fácil, não se pagariam milhares aos profissionais de Hollywood. Não é fácil, mas é um recurso tão poderoso que vale a pena tentar.

 

Basta que pensemos: normalmente, quem é a estrela da festa? O tipo que conta as melhores histórias. E quem é o orador mais popular num encontro científico? Aquele que conta boas histórias,  mesmo que estas sejam tecidas a partir de factos precisos.

 

O storytelling é um elo de ligação entre as ciências e as humanidades. Os cientistas não gostam de pensar muito sobre isto, mas é a verdade.  O mundo da ciência tem o storytelling na sua essência.

 

Se não acreditar nisto, basta que dê uma vista de olhos no típico artigo científico: é escrito a partir da estrutura dos três atos: introdução (exposição); métodos e resultados (correpondente ao corpo da história, o momento em que os eventos acontecem); e a discussão (a grande síntese/conclusão).

 

É uma fórmula antiga, mas importante nos dias que correm. Uma boa história é como a gelatina: há sempre espaço para ela.

 

Fonte: New Scientist (Randy Olson)

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