Sunday, January 20, 2019
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Mel Greaves, cientista na área da oncologia, descobriu de que forma um cocktail de micróbios pode funcionar no sentido de proteger as crianças contra determinadas doenças, nomeadamente a leucemia.

 

Mel Greaves tem um objetivo simples para a sua vida: tentar criar uma bebida, uma espécie de iogurte, que seja capaz de impedir as crianças de desenvolverem leucemia.

 

A ideia pode parecer, à partida, demasiado excêntrica. A maior parte dos cancros não conseguem ser derrotados de forma tão simples. Contudo, Mel Greaves está confiante e, dada a sua experiência no campo, as suas ideias começam agora a ser levadas a sério por outros investigadores a trabalhar na mesma área.

 

Sediado no Institute of Cancer Research, em Londres, Mel Greaves estuda a leucemia na infância há mais de três décadas. Na passada sexta-feira foi distinguido com o título de cavaleiro pela investigação realizada neste campo de estudos.

 

«Durante 30 anos andei obcecado com as razões que levavam as crianças a desenvolver leucemia», conta. “Hoje, pela primeira vez, temos uma resposta a essa pergunta – e isso significa que podemos, agora, começar a pensar em formas de travar a doença. Daí a minha ideia de criar esta bebida».

 

Na década de 50, a leucemia linfoblástica aguda comum – que afeta uma em cada 2.000 crianças no Reino Unido – era completamente letal. Hoje, 90% dos casos são curáveis, pese embora o tratamento seja muito tóxico e possam existir efeitos colaterais a longo prazo.

 

Para além disso, ao longo das últimas décadas, os cientistas deram-se conta de que o número de casos aumentou tanto no Reino Unido como na Europa, tendo tido um incremento de cerca de 1% ao ano.«Trata-se de uma característica das sociedades desenvolvidas, não das sociedades em vias de desenvolvimento», esclarece o investigador.

 

Recorde-se que a leucemia linfoblástica aguda é causada por uma sequência de eventos biológicos e que o seu ‘gatilho’ inicial é uma mutação genética que ocorre em 1 em cada 20 crianças. «Essa mutação é causada por algum tipo evento ainda no útero. Não é herdade, mas deixa a criança em risco de vir a desenvolver leucemia em algum momento da sua vida», acrescenta Mel Greaves. Para que ocorra, de facto, uma leucemia, há outro evento biológico que tem de acontecer e isso envolve o sistema imunitário.

 

«Para que um sistema imunitário funcione corretamente é preciso que consiga enfrentar uma infecção no primeiro ano de vida. Sem esse confronto o sistema é deixado despreparado e não funcionará adequadamente». Ora, esta questão está a tornar-se um problema cada vez mais preocupante. Repare-se que os pais, por motivos cada vez mais plausíveis, estão a criar as suas crianças em ambientes onde os antisépticos, os sabonetes antibacterianos, as esponjas desinfectadas, entre outros elementos, são muito comuns. De acordo com esta forma de atuação, a sujidade deve ser banida para o bem da casa.

 

Para além disso, há cada vez menos períodos de amamentação nos bebés e há uma tendência para que, atualmente, tenham menos contacto social com outras crianças. Estas duas tendências reduzem, assim, o contacto das crianças com as bactérias e com os germes (o que pode ter benefícios) mas, tem também, certamente, efeitos colaterais. Um desses efeitos tem a ver com a o facto das crianças estarem menos expostas a insectos e a infecções e, desse modo, os seus sistemas imunitários estarem menos preparados para fazer face às doenças.

 

«Quando um bebé destes é exposto a infecções comuns, o seu sistema imunitário, que não está imunizado, reage de maneira grosseira e anormal e desencadeia uma inflamação crónica». À medida que essa inflamação progride, são libertadas no sangue substâncias químicas, chamadas citocinas, que podem desencadear uma segunda mutação que resulta em leucemia em crianças portadoras da primeira mutação.

« A doença precisa de dois eventos para progredir. O segundo vem da inflamação crónica desencadeada por um sistema imunitário que não se encontra imunizado», esclarece o cientista.

 

Por outras palavras, uma criança susceptível a desenvolver uma inflamação crónica é aquela que está associada a um estilo de vida moderno onde todos os ambientes estão “super-higienizados”.

 

Desta perspetiva, a doença não está relacionada, como se acreditava no passado, apenas com linhas de energia ou estações de reprocessamento de combustível nuclear, é também influenciada por um conjunto de eventos pré-natais e ambientais, como destaca Greaves na edição deste ano da Revista Nature Reviews Cancer.

 

Repare-se que esta nova visão oferece aos cientistas uma hipótese de intervir mais rapidamente e impedir que a leucemia se desenvolva: «Ainda não sabemos como prevenir a ocorrência da mutação pré-natal no útero, mas podemos agora pensar em novas formas de bloquear esta inflamação crónica que acontece mais tarde».

 

Para o fazer, Mel Greaves e a sua equipa estão a trabalhar num conjunto de bactérias, vírus e outros micróbios que vivem no interior do intestino humano. São eles que nos ajudam a digerir a comida mas também nos dão uma indicação mais precisa daquilo a que temos sido expostos ao longo da vida. Note-se que, nos países desenvolvidos, a população tende a ter menos espécies bacterianas no seu interior, o que significa, consequentemente, que foi exposta a menos espécies de micróbios nos primeiros anos de vida. Ou seja, um reflexo claro do modo de vida “limpinho” em que vivemos atualmente.

 

«Precisamos de encontrar formas para reconstituir esses microbiomas – o que chamamos a esta comunidade de micróbios. Mas também precisamos de descobrir quais são as espécies mais importantes de bactérias que preparam o sistema imunitário de uma criança».

 

Para o fazer, Mel Greaves está agora a começar a fazer experiências em ratinhos para descobrir quais as melhores bactérias para estimular o sistema imuntário dos roedores. O objetivo seria, no prazo de dois/três anos, avançar para ensaios em seres humanos.

 

«O objetivo é encontrar entre seis a 10 espécies de micróbios que estejam mais capacitados para restaurar o microbioma das crianças para níveis mais saudáveis. Este cocktail de micróbios será dado, não na forma de um comprimido, mas, talvez, na forma de um iogurte que possa ser bebido pelas crianças mais pequenas».

 

«Isto não ajudaria apenas com a leucemia infantil mas também com doenças como a diabetes tipo 1 e outras alergias, que estão a aumentar no Ocidente e que parecem estar relacionadas com a nossa incapacidade para expor os bebés a bactérias ao nível do sistema imunitário infantil.»

 

«Parece-me uma perspetiva incrivelmente excitante e acredito que poderia ser usada para reduzir o risco de condições muito debilitantes».

 

Source: ©The Guardian Science

Crédito Foto: ©The Guardian Science

Tradução: CBMR Communication

Mel Greaves, cientista na área da oncologia, explica por que razão um cocktail de micróbios pode funcionar no sentido de proteger as crianças contra doenças.
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