Sunday, November 18, 2018
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A maioria das pessoas recorda com detalhes onde e como ficou a saber dos atentados terroristas aos Estados Unidos, há 17 anos. Mas nem sempre é possível confiar nestas impressões momentâneas, pois, segundo os especialistas, a nossa própria mente parece distorce-las.

 

 

Os atentados de 11 de setembro de 2001 marcaram um momento histórico dramático, do qual a maioria das pessoas se lembra. Muitos ainda sabem com precisão o dia da semana, horário aproximado, por meio de quem ficaram  a saber e o que faziam àquela hora. Investigadores referem-se a essas recordações vivas e detalhadas de acontecimentos historicamente significativos e inesperados como “lembranças-relâmpago”. O conceito (do inglês flashbulb memories) foi cunhado pelos americanos Roger Brown e James Kulik em 1977, quando desenvolviam um estudo sobre o modo como as pessoas se lembravam do assassinato de John F. Kennedy, ocorrido em 22 de novembro de 1963. Desde então, psicólogos e neurocientistas investigam as peculiaridades desses vestígios – como se instalam e se transformam ao longo do tempo.

 

O que já há muito se sabe é que a lembrança do acontecimento costuma ser um tanto diferente do facto em si, depende das circunstâncias que o cercam e de como foi recebida a notícia ou o primeiro contato com a informação. Esse contexto fica arquivado na memória – e traduz-se em conhecimento autobiográfico. Porém, os investigadores discordam quanto à estabilidade e consistência destas lembranças-relâmpago. Para alguns, elas permanecem relativamente iguais à medida que são realizados alguns questionamentos a respeito daquilo que a pessoa se lembra e de eventuais discrepâncias de seus registros mnêmicos (razão pela qual de antemão as excluem das suas experiências). No entanto, no caso de muitas pessoas que passam a ter lembranças-relâmpago na sequência de algum acontecimento compartilhado, nota-se que, com o tempo, surgem desfigurações ou contradições. E depois de alguns anos só é possível lembrar corretamente do conhecimento subjetivo.

 

As psicólogas Annette Bohn e Dorthe Berntsen, da Universidade Aarhus, na Dinamarca, descobriram um padrão subjacente a estas observações. Num estudo realizado em 2007, verificaram que a fidelidade aos detalhes e a vivacidade das nossas lembranças diferenciam-se na medida em que o episódio em questão desperta sentimentos positivos ou negativos. Investigação semelhante foi realizada com 103 alemães orientais e ocidentais, tendo como evento-chave a queda do Muro de Berlim, em 1989. Parte dos indivíduos que participaram no levantamento relatou ter vivenciado a mudança com alegria e entusiasmo; a outra, ao contrário, revelou ceticismo, incerteza e algum nível de angústia. A maioria dos voluntários considerava a queda do muro um divisor de águas promissor na história alemã. No entanto, uma pequena parcela dos alemães orientais viu o acontecimento com apreensão, temendo a derrocada dos ideais socialistas, a perda de seus postos de trabalho ou de seu lugar na sociedade.

 

NUMA QUINTA-FEIRA

 

Segundo o estudo de Annette e Dorthe, quase 20 anos após a queda do muro, voluntários de ambos os grupos relatam uma imagem diferente dos acontecimentos daquele 9 de novembro, ao descrever as imagens que lhes ficaram na lembrança e como se sentiram na ocasião. As investigadoras questionaram-nos no que diz respeito a factos – por exemplo, quem estava à frente do governo da Alemanha Oriental ou qual foi precisamente a data em que se deu a queda do muro. Perguntaram-lhes também se sabiam em que dia da semana tinha acontecido o facto (que ocorreu numa quinta-feira).

 

Enquanto os participantes da experiência que tinham uma imagem negativa da mudança se recordavam muito bem de datas e factos e eram capazes de citar uma série de consequências da queda do muro, as suas lembranças careciam, no entanto, de um colorido emocional. Entre os favoráveis à queda do muro, pelo contrário, logo lhes acorria a disposição de espírito experimentada outrora: lembravam-se de imagens, ruídos e sentimentos. Uma vez que tinham aqueles acontecimentos ainda vivos diante dos olhos, mostravam-se completamente convencidos de que conseguiam lembrar-se nitidamente dos factos. No entanto, isso era um paralogismo – um raciocínio falso, feito de boa-fé por falta de consciência do equívoco. Ainda que os entusiastas da queda do muro viessem com mais respostas prontas que os restantes, alguns dos seus conteúdos de pensamento estavam no âmbito da imaginação.

 

Annette e Dorthe deduzem que as lembranças-relâmpago são o resultado de um complexo processo de assimilação, influenciado tanto pelo estado de espírito daquele momento como pela atitude da pessoa em relação ao facto. Mas por que razão as testemunhas da história com uma predisposição positiva não conseguem lembrar-se tão bem dos detalhes? Por que razão com o decorrer  dos anos as recordações caem em esquecimento?

 

Os investigadores partem do seguinte pressuposto: nos acontecimentos felizes, em geral, não precisamos de resolver problema algum, de modo que o cérebro não precisa de se ocupar do armazenamento de detalhes. Além disso, preferimos muito mais os eventos positivos aos negativos – foi exatamente o que se passou com os alemães entrevistados. Quando contam, animadamente, a experiência que tiveram, novos detalhes são assimilados, o que resulta no falseamento ou encobrimento de lembranças autênticas. Já os acontecimentos negativos possibilitam-nos prestar toda a atenção a detalhes secundários, para assimilar e processar melhor cada informação – e com isso ordenamos e analisamos os dados sistematicamente.

 

No curso da História Humana, conseguir lembrar-se com exatidão de situações negativas muito possivelmente foi crucial para a sobrevivência da espécie. Quando os nossos ancestrais se deparavam com algum animal perigoso, convinha marcar essa experiência de maneira bastante precisa – e evitá-la no futuro. Se o indivíduo não se lembrasse tão somente dos factos, atendo-se também às emoções negativas que lhe estavam intensamente atreladas e perdesse o foco, a capacidade de rendimento poderia ficar comprometida.

 

FACTOS E SENSAÇÕES

 

Isto vale ainda hoje: pessoas que se lembram constantemente de acontecimentos traumáticos, anos após o ocorrido, sofrem, frequentemente, de patologias como depressão ou transtorno pós-traumático. Esses problemas podem agravar-se, entre outras coisas, pela incidência das lembranças incómodas (flashbacks) de um acontecimento traumático. Uma constatação, porém, intriga os investigadores: em algumas pessoas não é afetada a memória de curto prazo (que permite o armazenamento temporário de informações); em outros casos, apenas essa capacidade sofre danos. Já as emoções favoráveis intensificam a predisposição positiva e fortalecem a consciência de si. Portanto, o cérebro aprimora-se na tarefa de diferenciar os aspectos – factos ou sensações – que devem ficar gravados para o futuro.

 

Annette Bohn parte da ideia de que, pelo menos em teoria, todo o acontecimento histórico significativo pode conduzir a uma lembrança-relâmpago, contanto que se exceda um limiar. O pressuposto é que nessas situações a amígdala seja ativada. Esta estrutura em forma de amêndoa, situada no lobo temporal do cérebro, é responsável, sobretudo, por duas funções: analisar um possível potencial de risco e emprestar uma coloração emocional aos acontecimentos.

 

Mas essa não é a única área cerebral responsável pela memorização de acontecimentos ou situações vividas; há várias regiões envolvidas neste processo. Num estudo conduzido pelo investigador Patrick S. R. Davidson e por três colegas da Universidade do Arizona, em Tucson, em 2005, em conjunto com Mieke Verfaellie, diretora do Centro de Pesquisa sobre Distúrbios da Memória, da Escola de Medicina da Universidade de Boston, os cientistas pediram a 45 voluntários que se concentrassem em lembrar-se dos atentados terroristas de 11 de Setembro – meio ano depois de terem ocorrido. Deveriam fazê-lo de duas formas: por um lado, priorizando os factos; por outro, valorizando as circunstâncias nas quais receberam a notícia. Dos 45 indivíduos, 14 sofriam de disfunções no diencéfalo ou na parte interior do lobo temporal. Como causas de tais condições patológicas os médicos encontraram, entre outras, redução do tecido ou carência de oxigénio, decorrentes de paragem cardíaca. Nos outros 13 voluntários o lobo frontal encontrava-se danificado como consequência de tumores, ataques de apoplexia ou hemorragia cerebral. Um terceiro grupo era composto por pessoas saudáveis.

 

Pacientes com lesões no lobo frontal lembravam-se do acontecimento tão perfeitamente quanto pessoas sem problemas de saúde, mas tinham mais dificuldade em recordar como, quando e onde o haviam experimentado. Na opinião dos investigadores, esse é um indício importante de que o armazenamento ou ativação das lembranças são influenciados por questões individuais – e neurológicas. O mesmo valeu para os pacientes cujo diencéfalo ou lobo frontal estava avariado. Nessas pessoas, não só a memória autobiográfica era afetada: uma vez que não conseguiam lembrar-se com nitidez dos factos relacionados com os atentados de 11 de setembro. Mesmo palavras-chave, como “World Trade Center”, “Nova York”, “avião” e “terrorismo” lhes eram pouco significativas. Um paciente deduziu que estas palavras estavam relacionadas com algum acontecimento no qual terroristas tinham feito um avião chocar contra as torres gémeas, mas não acreditava que isso de facto tinha acontecido.

 

Danos no lobo temporal comprometem completamente a memória; já os pacientes com lesões restritas ao diencéfalo esquecem as suas próprias vivências relacionadas com factos marcantes. Os investigadores também colocaram em teste o funcionamento mnêmico dos voluntários de modo geral. As pessoas que melhor se saíam eram também as que mais se lembravam dos factos. A recordação das situações pessoais ligadas a acontecimentos como os atentados de 11 de Setembro, no entanto, independia da capacidade geral de memorizar.

 

TESTEMUNHO DUVIDOSO

 

Os problemas com as lembranças, porém, não se deviam, necessariamente, a lesões cerebrais. Quando os investigadores Brown e Kulik introduziram o conceito de lembranças-relâmpago, supunham que estas estivessem marcadas profundamente na memória a ponto de permanecer indeléveis por anos ou até mesmo décadas – teoria hoje ultrapassada. Um caso especialmente proeminente de falsas lembranças é descrito por Daniel Greenberg, da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte.

 

O neuropsicólogo analisou entrevistas concedidas por George W. Bush pouco tempo depois do 11 de Setembro que desnudaram uma contradição num ponto crucial para as experiências em memória. Mesmo tendo o presidente americano relatado que um dos seus assessores lhe tinha comunicado, pessoalmente, o que estava a acontecer, em duas outras entrevistas, algum tempo depois, Bush afirmou ter ficado a saber dos ataques ao ver a cena do primeiro avião a colidir com uma das torres. Mas, na verdade, não havia hipótese de ter visto a colisão do primeiro avião naquele momento – simplesmente porque, até então, não tinham sido divulgadas imagens.

 

Como é que tal facto lhe fugiu à percepção? A verdade é que fugiu. E foi o suficiente para que os boatos começassem a circular na internet: saberia Bush dos atentados antes de eles acontecerem, tendo examinado, previamente, algum material que continha as imagens? Estaríamos a ser testemunhas de um acto falho freudiano e Bush seria um integrante da conspiração? Daniel Greenberg apresentou, prontamente, uma resposta para o sucedido: o falseamento das lembranças-relâmpago como resultado da ação dos meios de comunicação. Uma vez que acontecimentos de significado mundial são, incansavelmente, ‘repisados’ pelas emissoras, as nossas lembranças originais são inundadas por uma torrente de imagens. E uma vez que podemos nos remeter não apenas ao que foi ouvido, mas também ao que foi visto, as nossas lembranças tornam-se muito mais seguras, uma vez que o cérebro pode assimilar e aceder muito bem às imagens. Ocorre que, aquilo de que nos lembramos, por vezes, não tem muito a ver com o que foi realmente a nossa experiência pessoal. As conversas com outras pessoas acabam por fazer-nos ratificar as nossas impressões e acrescentar-lhes novas informações.

 

Greenberg supõe que o próprio George W. Bush, nos dias e semanas seguintes, viu diversas vezes as cenas dos atentados incansavelmente divulgadas pelos meios de comunicação – tanto que a imagem filmada do primeiro avião atingindo uma das torres acabou por assomar e preponderar. As reproduções mais eloquentes foram-lhe de recordação mais fácil do que a informação trazida pelo seu assessor.

 

Um dos pioneiros da psicologia cognitiva, Ulric Neisser, professor da Universidade Cornell, em Ithaca, no estado de Nova York, também acredita que essa hipótese seja bastante plausível. O investigador defende que as lembranças-relâmpago podem ser falseáveis – como, aliás, as restantes lembranças. Neisser concorda que os média, ao apresentar exaustivamente os acontecimentos de importância mundial, e, em segundo lugar, as sensações intensamente relacionadas com essas lembranças, contribuem para esse falseamento. Cada vez que se retorna ao facto, a percepção do momento histórico é alterada, sem que estejamos conscientes disso.

 

Neisser afirma que as lembranças de um acontecimento partilhado não se formam, necessariamente, no instante a que se referem, mas só quando o significado do episódio se torna evidente para a sociedade e para nós mesmos. Com isso, esclarece o alto índice de citações falsas envolvendo questionamentos posteriores. A memória constrói, posteriormente, uma história pessoal. “Recordamo-nos dos detalhes porque atrelamos a nossa própria história à história do mundo. Lembranças-relâmpago fazem de nós, por um lado, parte de um todo super ordenado; por outro, parte da história coletiva”, diz Neisser.

 

Fonte: © Duetto Editorial

©Observador
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