Wednesday, November 21, 2018
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A anestesia continua a ser uma das ciências mais misteriosas e inexatas – e milhares de pacientes continuam a acordar na mesa de operações todos os anos.

 

Quando Rachel Benmayor deu entrada no hospital, grávida de oito meses e meio, em 1990, com a pressão arterial perigosamente elevada, o médico aconselhou-a a descansar o máximo possível antes do nascimento do bebé.  Mas a sua pressão arterial continuava a subir – e a sua condição, conhecida como pré-eclâmpsia, embora não fosse incomum, podia levar a complicações fatais. Por isso, os médicos decidiram induzir-lhe o parto.

 

Quando, após 17 horas de trabalho de parto, a dilatação falhou, os médicos colocaram-na sob anestesia geral.

 

Rachel lembra-se de ser levada até ao cirurgião. Lembra-se da máscara, do gás. Mas depois, assim que o cirurgião fez a primeira incisão, acordou.

 

“Lembro-me de estar na mesa de operações. Lembro-me de levar uma injecção no braço, de sentir o líquido a fluir e do Glenn, o meu marido, e a Sue, a parteira, estarem ao meu lado. Depois, a primeira coisa de que consigo lembrar-me é de estar consciente e de sentir uma enorme dor. Lembro-me de um som bastante alto que ecoava, um som rítmico, com uma batida compassada. E da dor. Lembro-me de sentir uma pressão incrível na minha barriga, como se tivesse um camião em cima dela, a andar para a frente e para trás”.

 

Alguns meses após a operação, foi-lhe explicado que quando a cavidade abdominal é aberta, o ar que se encontra entre os órgãos internos dá origem a uma sensação de grande pressão. Mas, naquele momento, deitada na sala de operação, continuava a não ter a menor ideia do que estava a passar-se. Pensou que tinha sofrido um acidente de viação. “Tudo o que sabia, naquele momento, era que conseguia ouvir coisas. Sentia uma dor horrível. Não sabia onde estava. Não sabia que estava a ser operada. Estava consciente apenas da dor”.

 

Todos os dias, anestesistas de todo o mundo colocam pessoas num estado de “coma químico” que permite aos médicos intervencionar os seus corpos, trazendo-as de volta pouco depois. Todavia, o modo exacto como esta “suspensão” acontece, continua a ser, ainda, incerta. Os investigadores sabem que a anestesia geral atua sobre o sistema nervoso central – reagindo com as células nervosas do cérebro por forma a suspender respostas como a visão, o toque e a consciência.

 

Há, no entanto, temas sobre os quais ainda não há uma resposta exacta. O que acontece, exatamente, no cérebro naquele momento? Por que razão diferentes anestésicos podem provocar reacções diferentes? Como se processa essa suspensão de um estado de consciência para um estado de não consciência?

 

Nos últimos tempos, colocar alguém em “suspensão” significa confiar em sinais dados pelo corpo, em cálculos baseados na concentração sanguínea, entre outros indicadores. Mais recentemente, têm vindo a ser desenvolvidos métodos de monotorização cerebral que traduzem a actividade elétrica do cérebro numa escala numérica. Por todas estas razões, e devido à incerteza que envolve todo o processo, os médicos continuam a não saber ao certo quão profunda pode ser a anestesia administrada ou, até mesmo, se a pessoa ficará inconsciente de todo.

 

Em todo o caso, cada anestesia é uma viagem à morte com regresso programado. Quanto mais anestésicos forem administrados, mais prolongado será o recobro e maior é a probabilidade de alguma coisa correr mal. Menos anestésicos significam maior probabilidade de acordar. Trata-se de um ato de equilíbrio.

 

No caso de Rachel, quando o procedimento terminou, tomou consciência das vozes mas não conseguia perceber o que estava a ser dito. Apercebeu-se que não estava a conseguir respirar e começou a tentar inalar. “Tentava desesperadamente respirar pois tinha a consciência de que, se não o fizesse, ia morrer”.

 

Rachel não tinha consciência de que havia uma máquina a respirar por ela. “No final apercebi-me que não podia respirar e que devia apenas deixar acontecer o que estava a acontecer. Então parei de lutar”. Nessa altura, todavia, entrou em pânico. “Não conseguia lidar com a dor. Aquilo não terminava e eu já nem sabia quem era”. Então, começou novamente a ouvir vozes. E, desta vez, já conseguia compreendê-las. “Ouvia-os falar sobre coisas, sobre pessoas, sobre o que tinham feito no fim-de-semana, e, de repente, ouvi-os dizer ‘vêm aí o bebé’.  Apercebi-me, nesse momento, que tinha estado consciente durante toda a operação. Tentei avisá-los, mexer-me, mas apercebi-me que estava completamente paralisada”.

 

As probabilidades de um episódio como este acontecer são extremamente remotas. Mais remotas ainda nos últimos 25 anos, com o equipamento tecnológico que existe na área da monotorização.

 

O número de acontecimentos deste tipo variam, mas, grande parte dos estudos europeus mostram que um em cada dois pacientes, em 1.000, confessam ter acordado durante a anestesia. A maior parte dos episódios na Europa parece ter acontecido em Espanha, mas, só nos Estados Unidos 20.000 em cada 40.000 pessoas acordaram durante cirurgias.

 

Desses, apenas uma pequena parte sentiu dor. O impacto, no entanto, neste tipo de casos, pode chegar a ser devastador.

 

Para Rachel, que passou dias no quarto de hospital sem conseguir dormir, o episódio foi apenas o início de anos e anos de pesadelos, ataques de pânico e terapia.

 

Quatro semanas após regressar a casa começou a ter ataques de pânico no quais sentia que não conseguia respirar. Embora confesse que o hospital admitiu o erro e se desculpou pela situação, admite não ter tido qualquer ajuda por parte da instituição.

 

Fonte: The Guardian

“Lembro-me de estar na mesa de operações. Lembro-me de levar uma injecção no braço, de sentir o líquido a fluir (…) Depois, a primeira coisa de que consigo lembrar-me é de estar consciente e de sentir uma enorme dor. Lembro-me de um som bastante alto que ecoava, um som rítmico, com uma batida compassada. E da dor. Lembro-me de sentir uma pressão incrível na minha barriga, como se tivesse um camião em cima dela, a andar para a frente e para trás”.

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