Sunday, November 18, 2018
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A comunicação de ciência é parte do dia-a-dia dos cientistas. Comunicam, diariamente, com os seus pares, dão conferências, palestras, falam com os jornalistas, escrevem em blogs e em jornais, aparecem na televisão e envolvem-se em discussões públicas. Mas, estamos longe de poder afirmar que todos os cientistas se envolvem ativamente na comunicação pública dos seus trabalhos.

Algumas áreas científicas revelam maiores falências do que outras no que diz respeito à comunicação de ciência, e, talvez, surpreendentemente, como mostro através da minha investigação, a saúde e as ciências biomédicas encontram-se entre as áreas que menos comunicam com o público.

Este dado parece ser, na melhor das hipóteses, surpreendente. Num momento em que a saúde global atravessa inúmeros desafios, desde as infeções à propagação de doenças, passando pelos riscos trazidos pela poluição ambiental, cabe-nos observar que, de facto, todos estes desafios exigem a necessidade de um envolvimento público com questões relacionadas com a comunicação de ciência.

Para além disso,  parece existir, efetivamente, por parte do público, uma considerável procura por informação relacionada com o campo da saúde e da medicina, com as descobertas científicas no campo médico a liderar a lista de interesses da população. Note-se, aliás, que os cientistas são, na sua maioria, vistos pelo público como os mais confiáveis provedores de informação científica.

Se eu, enquanto leiga, disser às pessoas de que forma devem tratar as suas doenças e que precauções devem ter relativamente à sua saúde, muito provavelmente nunca serei levada a sério. No entanto, se essa mesma informação lhes for oferecida por um especialista, terá, com certeza, boas probabilidade de ter um bom impacto.

 

Ao longo das nossas vidas habituámo-nos a confiar na ciência. Desde informações elementares sobre como podemos melhorar a nossa saúde até questões mais complexas como assumir posições no que diz respeito a controvérsias científicas, a ciência faz parte da nossa vivência diária (por vezes, mesmo que por mero entretenimento). No entanto, mesmo com a ciência a desempenhar um papel tão importante nas nossas vidas, as oportunidades do público para participar neste processo parecem encontrar-se, ainda, de certo modo, limitadas e constrangidas aos meios tradicionais ou à forma mais “convencional” de comunicação com o público: as “velhas” palestras.

 

Recorde-se que há mais de três décadas que a Royal Society (1985) destacou, através de um relatório, o papel fundamental dos cientistas no processo de comunicação pública, enfatizando que estes “deviam aprender a comunicar com o público”, considerando esta tarefa “seu dever e sua missão”. A mensagem, clara e simples, entregue por uma organização de grande reputação, parece hoje afirmar-se como ponto de referência para pensarmos e destacarmos a importância da comunicação científica que conheceu, ao longo dos últimos anos, um panorama de clara mudança.

 

Nesse sentido, é deveras encorajador ver cada vez mais e mais cientistas interessados em envolver-se em atividades de comunicação de ciência, encarando-as, também, como sua missão. Para além disso, e como provo a partir da minha investigação, a cumprir-se determinadas condições (como haver financiamento e ter staff especializado a trabalhar nas instituições de investigação), parece haver uma clara tendência para o aumento de atividades de comunicação de ciência.

 

Mas há, ainda, um longo caminho a percorrer. Se a formação é importante , dispor de apoio institucional e de meios de comunicação adequados não serão, com certeza, menos.

Igualmente importante é pensar acerca da velha relação deficitária que o público mantém com a ciência e no modo como o cientista é pensado e visto pela opinião pública. Sabemos, por exemplo, que a imagem negativa que os cientistas alimentam do publico está associada a um menor envolvimento dos cientistas nos processos de comunicação pública. Trata-se de um dado interessante a ter em conta.

A comunicação é a essência da ciência. O conhecimento científico só ganha forma quando é comunicado, e os vários atores, desde os cientistas às comunidades locais, aos pacientes, aos jornalistas, ao público, devem trabalhar em conjunto neste processo.

A comunicação de ciência não é um processo unidirecional – dos cientistas para os “consumidores” de conhecimento.  É um processo muito mais rico, muito mais dinâmico, uma atividade multidirecional na qual diversos públicos interagem e aprendem uns com os outros.

 

Hoje em dia, com as unidades de investigação a potenciar a sua capacidade para apoiar os cientistas a comunicar o seu trabalho, através de novas abordagens e de novos meios de comunicação, as atividades de comunicação de ciência tornam-se cada vez mais apelativas, agradáveis e compensadoras para os investigadores.

 

Assim, é com grande entusiasmo que vejo o Centro de Investigação em Biomedicina (CBMR), da Universidade do Algarve, lançar a CBMR Science Platform, uma plataforma de Comunicação de Ciência, a atuar na área da medicina e das ciências biomédicas, oferecendo ao público a possibilidade de conhecer e envolver-se diretamente na investigação levada a cabo no Centro, no país e no mundo.

Acredito que esta plataforma capacitará, de modo único, a comunidade científica, oferecendo-lhe uma oportunidade ímpar para se envolver com o público de modo mais próximo e corresponder, através da produção de informação, a uma necessidade de engajamento público em questões relacionadas com as ciências da saúde.

Agora está nas mãos dos investigadores do CBMR e do público em geral tornar esta plataforma num ponto de referência, num recurso único e significativo no panorama das ciências médicas em Portugal!

 

 

(Bolseira Marie Currie na London School of Economics e Vencedora do Prémio de Jovem Investigadora Europeia do ano 2016)

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